Cultura. Morte. Renovação. Rakugo

Olá pessoal, este é o primeiro de alguns artigos que farei analisando a fundo as mensagens e idéias que uma série deseja passar. Note que nestes artigos não vou poder deixar de dar spoilers, já que o objetivo é justamente desmembrar as mensagens por completo, e isso é impossível sem entregar a trama. Então se você ainda não assistiu a algum episódio, ou show em sua totalidade, talvez seja melhor terminar e voltar aqui para ler o artigo. No mais, espero que vocês gostem do artigo!

capa rakugo

Rakugo pode ser melhor descrito como a arte japonesa de narrativa cômica sentada. Como no ocidente existe o stand-up comedy, no japão existe o ‘sit-down comedy’.
– OSHIMA, Kimmie, Humor & Health Journal Vol XII, Number 3, 1998.

Shouwa Genroku Rakugo Shinjuu, ou apenas Rakugo para alguns, certamente foi o melhor show da temporada de 2016. Sim, superando Boku dake ga Inai Machi. Não, eu não sou louco. Por favor guarde a sua forquilha e tocha, vamos conversar.

Rakugo apresenta uma premissa simples: um jovem yakuza recém saído da prisão, inspirado por uma apresentação realizada no presídio, decide dedicar-se à arte conhecida como Rakugo, para isso ele procura o maior mestre da época. Uma proposição simples, mas que é trabalhada de modo que uma história complexa é trançada a partir de um ponto rudimentar.

Muitos animes tentam ser grandiosos e mirabolantes, o que é ótimo quando feito corretamente, mas que na maioria dos casos não é o que acontece, Rakugo não sucumbe a tendência moderna de tentar ser “esperto demais”. A narrativa é apresentada de maneira concisa e clara, envolvendo o telespectador de maneira sútil, deixando a sua trama fluir de maneira gentil. A história não é movida por eventos importantes, ela apenas acompanha seus personagens em suas vidas cotidianas, os quais a movem de maneira orgânica. Assim somos levados por eventos que não tem segundas intenções – como nos chocar ou apenas prender nossa atenção por mais cinco minutos – o que torna a viagem e não o destino (o qual é conhecido desde o primeiro episódio) o grande prazer de se assistir a essa obra.

Cultura

…nós dois escolhemos rakugo, pois amamos rakugo.
– Sukeroku, ep. 8.

Desde o primeiro minuto de animação é possível notar o carinho e atenção aos detalhes pela cultura japonesa, mostrando que os criadores da série investiram tempo considerável na ambientação e isso transparece em cada frame. É possível que alguns dos pequenos detalhes que foram cuidadosamente colocados no show tenham passados desapercebidos, pois é normal acabarmos por nos fixar nos personagens e pontos principais do enredo, de maneira que certas minúcias se integram à cena de forma fluida ( marca de uma direção de qualidade). Olhando com calma para a série, podemos ver que a todos os momentos estamos inseridos em um ambiente condizente com a era e localidade da cena, seja no cenário ou nos trejeitos e roupas dos personagens, detalhes que auxiliam na entrega da trama a nós.

scenery

Analisando os personagens nota-se que todos são, em si, incorporações de personalidades, costumes e clichês japoneses e da literatura clássica: o par de garotos (um rico, outro pobre) que se tornam irmãos, o mestre, o savant desleixado, o gênio do esforço e a Geisha apaixonada. Todas essas personalidades são apresentadas e desenvolvidas de maneira única e natural, mas que, ainda sim, acompanham a época em que acontecem. Isso pode ser sentido nas decisões e obstáculos encontrados pelos personagens ao longo da jornada, sejam essas lutas diárias: a busca da paixão pela arte do Rakugo, a decisão de qual aprendiz levar consigo em uma viagem perigosa ou as constrições sociais da época que não permitem que dois amantes acabem juntos.

Dessa maneira Rakugo nos apresenta e envolve em um manto de cultura acompanhado por personagens vívidos e interessantes, retratados de maneira suave e que desenvolvem suas personalidades ao decorrer do tempo. Naturalmente seguimos o crescimento pessoal de cada protagonista, e acabamos por ser conduzidos ao próximo ponto central da trama de Rakugo.

Morte

“Você realmente deveria escutar mais vezes o que ele e os grandes mestres tem a dizer.”
– Kikuhiko, ep. 8.

A primeira apresentação a qual somos introduzidos a é Shinigami (escrita por Encho Sanyutei), que aborda o tema de como um deus da morte (shinigami) engana um jovem prisioneiro que tem a chama de sua vida apagada. De maneira simbólica somos apresentados a um dos conceitos principais da série, a morte. Morte não apenas de pessoas, mas também de hábitos, tradições e – mais importante – da própria arte do Rakugo.

Shinigami é considerada uma história clássica, contudo a mesma foi baseada em um conto dos irmãos Grimm (Der Gevatter Tod), fazendo-a assim uma história relativamente recente, mas ainda assim definida como um clássico. É interessante observarmos que esta peça foi a escolhida por Kikuhiko como a obra que iria, quando dominada, representar o amadurecimento de suas habilidades. Essa decisão em si é peculiar, visto que a peça é relativamente moderna, e Kikuhiko personifica a classicalidade da arte, o que, de certa forma, representa o estado do Rakugo no show: uma forma de entretenimento engessada por tradições e presa entre o clássico e o novo.

A representação máxima desse predicamento vem no formato da jornada até o aperfeiçoamento de Shinigami por Kikuhiko. Kiku, durante sua apresentação de Shinigami no episódio 10, corre os olhos pela platéia e sente a energia transmitida por ela, ponderando se o estado emocional da platéia deve influenciar em sua atuação, e rejeita a idéia com as palavras “Esse não é meu Rakugo”. A platéia some e é substituída por velas, a peça continua e termina sendo um sucesso, finalizando a transformação completa do artista em um mestre clássico do Rakugo, todas as suas apresentações de Shinigami após aquele ponto seriam tão boas quanto, porém seriam sempre iguais.

shinigami

Do outro lado temos Sukeroku, que realiza suas apresentações não para buscar a forma máxima, mas sim para a platéia. Suas apresentações incorporam aspectos do humor do público presente, envolvendo a platéia de modo que outros artistas não conseguem, dando a sua arte um sabor completamente diferenciado de sua contraparte, Kikuhiko. As idéias de Sukeroku são claras: Rakugo é uma arte que depende das pessoas, que foi feita para o público e que deve se adaptar às mudanças de sua audiência.

Não seria engraçado? O falecido Sukeroku se tornando Yakumo…
– Hatsutaro, ep. 8.

Sukeroku representa as forças de mudança dentro de uma arte institucionalizada, o que assusta os mestres antigos, que vêem nele uma fonte de corrupção das tradições e não um modo de revitalizar o Rakugo. Medo que é reforçado pelo estilo de vida extravagante e por seu descaso pelas tradições e normas enraizadas dentro da arte, mas esse mesmo estilo de vida e despreocupação é o que dá toda a intensidade a sua personalidade e apresentações. Sukeroku personifica a fantasia boêmia que vive na psique popular: de que artistas devem viver uma vida exótica e emocionante, que quando riem, riem mais alto, que quando bebem, bebem mais. A extravagância e desprendimento de sua personalidade e apresentação cativam e capturam a atenção e coração do público, e não é surpreendente ver que a morte de Sukeroku veio precedida de sua morte como artista.

Com seu  exílio auto-imposto a chama de Sukeroku perde a intensidade e, o que antes era selvagem, emocionante e intenso, dá lugar a uma melâncolia e saudosismo dos tempos de outrora. Agora com uma filha (Konatsu) e uma esposa (Miyokichi) que o abandonou, Sukeroku é uma sombra do que era antes, fazendo com que Kikuhiko tome como objetivo tentar reavivar o artista dentro de seu amigo. Missão que fora bem-sucedida até o ponto em que Sukeroku se ajoelha a frente de Miyokichi e promete abandonar o Rakugo e viver uma vida honesta. Durante sua apresentação ainda era possível sentir um resquício do artista rebelde dentro de Sukeroku, mas com o ato de renúncia tais resquícios são apagados, o artista dentro de Sukeroku enfim morre. Na cena seguinte o alquebrado Hatsutaro despenca da janela para a sua morte, a tragédia é completa.

sukeroku downfall

Renovação

Por favor! Me deixe herdar o nome de Sukeroku!
– Yotaro, ep. 12.

De maneira contrastante vemos as diferenças entre estilos dos protagonistas principais, as quais refletem a luta do Rakugo para se manter relevante durante a passagem dos anos e a relutância da geração passada em correr riscos, em acreditar que mudanças na arte são necessárias e  benéficas. Com a morte de Sukeroku (e a relutância em treinar discípulos por parte de Kikuhiko) percebemos como o ofício do Rakugo acaba congelado em sua evolução. Contudo quando Yotaro é introduzido, a sua semelhança com Sukeroku faz com que ele seja aceito como um estudante, trazendo um novo fôlego ao ofício.

Hatsutaru e Yotaro realmente são semelhantes em muitos aspectos – fato que é mencionado diversas vezes durante a série – mas ao mesmo tempo vemos que ambos são opostos em muitas de suas qualidades. A naturalidade para contar histórias de Sukeroku, a lábia e malandragem não são parte do caráter de Yotaro, que representa a inocência e ingenuídade presentes nos jovens. Mas ao mesmo tempo notamos irreverrência, carisma e empatia características do finado mestre manifestam-se em Yotaro, mesmo que sómente em pequenos flashes de genialidade durante algumas apresentações, mas que sem dúvida denotam que Yotaro é uma das sementes cheias de potencial se desenvolvendo dentro do Rakugo.

Fazendo par com a semente de potencial de Yotaro está o bebê que cresce no ventre de Konatsu, que simboliza a continuação da linhagem de Hatsutaro e Miyokichi. E se Konatsu e seu filho representam a renovação do sangue de Sukeroku, Yotaro dá nova vida aos ideais de Shin  quando pede a seu mestre para que ele herde o nome de Sukeroku ao invés de Yakumo. Carne, sangue, alma e rakugo completam o ciclo que hávia sido interrompido de maneira precoce.

konatsu

Rakugo

…estou muito feliz o tamanho desta audiência, vejo alguns assentos vazios e isso é perfeito! Sabe, Rakugo não pode ser apresentado para uma platéia grande demais…
– OSHIMA, Kimmie, circa 2011.

Apesar de sermos expostos a todos esses personagens intrincados e carismáticos, a verdadeira estrela da série é outra: o Rakugo em si. Seja durante as performances ininterruptas, e inalteradas, as quais somos introduzidos ou durante a jornada de Bon e Shin para afiar suas habilidades, o Rakugo sempre foi o grande ponto que uniu a história e seus atores juntos. Os criadores de Shouwa Genroku Rakugo Shinjuu quiseram, acima de tudo, nos contar uma história sobre essa arte que fora tão grande em outra época, e o fizeram de maneira espetacular. O carinho, atenção e respeito dados as obras e costumes são estelares, extendendo-se até ao modo como os personagens se referem uns aos outros durante os episódios, apenas por seus nomes de palco.

A simplicidade e sinceridade no modo de apresentação da trama é outro fator que ajuda a manter o tom maduro do show. Os personagens não tentam criar situações inusitadas ou dar mais valor do que é merecido a certos momentos de suas vidas. Instantes que foram de grande importância para os protagonistas, como a separação com uma namorada, podem acabar por se tornar apenas mais uma memória desbotada. Fazendo com que os personagens pareçam naturais e humanos, o que nos permite empatizar fácilmente com eles.

Acredito que muitos dos que acompanharam a série acabaram por procurar um pouco mais sobre o Rakugo. Talvez tenham assistido a uma apresentação no YouTube, ou ao menos olharam no Google sobre o bendito leque que os atores usam em suas performances. O importante é que o interesse foi criado, os personagens foram cultivados, nos cativaram e estão prontos para nos contar mais sobre Rakugo, e eu mal posso esperar pela a próxima apresentação de Yotaro.

rakugo presentation

Links

Kimmie Oshima
Der Gevatter Tod
Encho Sanyutei
Apresentação de Rakugo – Zoo

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